A história contemporânea do arranque industrial das minas de pirite alentejanas estará para sempre ligada a uma notícia de João Maria Leitão, no periódico espanhol Revista Minera

Ano: 
1850
Descrição: 

Helena Alves em Rotas do Minério, afirma que a primeira atenção dada à área actualmente conhecida por Faixa Piritosa Ibérica em território nacional parece dever-se a João Maria Leitão, e aos seus artigos publicados na «Revista Minera», entre 1850 e 1851 (Alves,1996, p.148). João Maria Leitão nasceu no Gavião em 1819, e morreu em Lisboa, em 1870. Segundo o que é noticiado no Obituário da “Revista de Obras Públicas e Minas” do ano de 1870, estudou no colégio de Sernache e foi em Lisboa, onde frequentava o curso da Marinha, que conheceu o homem que parece ser o responsável pela surpreendente inflexão no seu destino profissional. Referimo-nos a Silvestre Pinheiro Ferreira (Lisboa, 1769 – Lisboa, 1846), «cosmopolita de espírito liberal (...)
João Maria Leitão foi, a seu conselho, estudar para a Escola de Minas de Paris. Depois, ainda segundo a nota biográfica, seguiu-se o tirocínio prático da mineração, na Saxónia, Boémia, e outros pontos da Alemanha. Que o intuito seria uma nova tentativa de preparar um quadro para o desenvolvimento da mineração e metalurgia em Portugal é sugestão mais do que óbvia. O que já não parece tão claro, foi o modo como face ao regresso, em 1842 ou 1843, as instituições (não) fizeram a integração desse elemento: «...obteve em resposta que só lhe poderia ser dado o lugar de amanuense da secretaria, e temporariamente, sem vencimento». Conforme nos relata ainda a pequena notícia biográfica, «desenganado» daquela forma em Portugal, Leitão tomou o caminho de Espanha, onde pode finalmente exprimir e aplicar os conhecimentos adquiridos: foi consultor de vários empresários de minas, dirigiu por algum tempo as minas de Moncaio no Aragão, escreveu para a “Revista Minera” artigos que foram depois reproduzidos nos Annales des Mines.

Afirma-se que por altura do seu regresso a Portugal, visitou as minas de Grândola e de S. Domingos (Mértola), e (conjectura-se) dessa excursão terá resultado o primeiro conhecimento de que aquelas minas se achavam situadas na mesma zona das célebres de Riotinto. Terá sido a importância dos trabalhos nas minas de Riotinto, em laboração desde o início do século anterior, e de uma forma geral a riqueza minero-metalífera do distrito de Huelva, que o incitou a referir as imensas semelhanças geológicas e evidências de trabalhos antigos manifestadas no prolongamento dessa região em território português (Alves,1996, p.148).
Os artigos de Leitão estimularam por sua vez o interesse de industriais franceses, em particular o de Simon Víctor Ernest Deligny. Baseando-se nas informações constantes nesses artigos, Deligny enviou homens de sua confiança para pesquisar os locais da mina, Nicolas Biava e Juan Melbourrien. Em 1854 o primeiro declarava o achamento da mina de S. Domingos, entregando a 16 de Junho um manifesto na Câmara de Mértola, a requerer o direito de descobridor legal das minas de cobre situadas no Serro de Ouro (Volta-Falsa), Serro das Minas, Serro de São Domingos, e assinalava a existência, em todas, de vestígios de explorações muito antigas (Alves,1996, p.150).
A 17 de Janeiro de 1861 a empresa Mason & Barry obteve a aprovação do seu plano de trabalhos de lavra a executar na denominada «mina de cobre» de S. Domingos. A apoiar esta decisão estivera, entre outros factores, o parecer dado, a 4 de Dezembro de 1860, (Boletim do Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria - BMOP, N.º12, 1861, pp.437-438), pelo Conselho de Minas, constituído por João Crisóstomo de Abreu e Sousa, Isidoro Emílio Baptista, João Maria Leitão, Francisco António Pereira da Costa, José Victorino Damásio, João Ferreira Braga e Carlos Ribeiro (Sousa et al., 1860, p.521).

Para elaborar o parecer, e porque achou que não dispunha de informação suficiente para emitir uma opinião abalizada sobre o dito projecto de lavra, este orgão tinha solicitado a presença in loco de um engenheiro inspector, a fim de avaliar da situação da mina e recolher os elementos necessários para o conselho se pronunciar. A pessoa designada foi João Maria Leitão, o inspector geral das minas, que elaborou um detalhado relatório, datado de 22 de Setembro de 1860, onde discutia três questões: a importância do jazigo, os métodos da lavra e os processos de tratamento dos minérios com vistas à obtenção de substâncias úteis (Sousa et al, 1860, p.518).

Devido ao estado incipiente dos trabalhos na mina, Leitão informava que não era possível determinar com exactidão, «nem mesmo aproximadamente, o valor do jazigo de S. Domingos», que a rigor só estaria completamente definido quando se conhecessem os seus limites em todos os sentidos e a lei média do minério. «Esses algarismos, obra de alguns segundos com a palavra, resumem o trabalho de muitos séculos», é ainda uma afirmação do autor do relatório, mas «se não nos é dado por agora atingir, nem mesmo aproximadamente, a um rigor absoluto (...) seja-nos lícito ao menos apresentar algumas observações, que nos dêem uma certa ideia, senão uma ideia certa do valor desta mina» (Leitão,1860, p.522).
Uma «certa ideia» deste jazigo foi então a aproximação possível ao reconhecimento do seu valor. Sem a utilização sistemática de ensaios docismáticos, não existiam elementos suficientes para apreciação da composição do minério, particularmente dos teores em cobre. A falta de bases para estabelecer uma classificação, e a necessidade absoluta da existência de uma para o estudo comparativo dos diferentes métodos, obrigou a que Leitão adoptasse uma «hipotética» para o minério, considerando-o análogo a outros jazigos conhecidos (não diz quais) em termos de variações de riqueza da sua massa. Esta classificação consistia assim em minério de 1.ª, 2.ª e 3.ª classes com 6 %, 3 % e 1,5 % em cobre, respectivamente, o que correspondia igualmente a existirem 1.200 toneladas deste metal em 20.000 toneladas de minério, para minério de 1.ª classe, 1.200 toneladas em 40.000 de minério, para o de 2.ª, e 600 em 40.000 para o de 3.ª (Leitão, 1860, p.526).

Das várias hipóteses consideradas para o destino a dar ao minério extraído, o autor deste relatório afirmou ter examinado em minúcia as seguintes: A - venda de todo o minério em Inglaterra; B – Fundição de todo o minério em Portugal segundo o processo de Galles até obter cobre refinado; C – Fundição de todo o minério em fornos latos segundo o sistema de Agordo (parcialmente) até obter cobre refinado; D – Fundição do minério de 1.ª classe e dos núcleos de ustulação do minério de 2.ª e 3.ª classe submetido à ustulação. Cementação das terras; E – Venda do minério de 1.ª classe em Inglaterra e cementação em Portugal de 2.ª e 3.ª classe; F – cementação de todo o minério em Portugal (empregando ferro fundido ordinário, ou ferro cuprífero obtido do mesmo minério em Portugal).

Feitas as contas em cada cenário possível, considerando os preços de mercado das pirites, do enxofre e do cobre, e os custos de produção, incluindo gastos com transporte, para além das características do local da exploração e dos aspectos próprios dos processos em avaliação, o engenheiro Leitão assinalava o lucro elevado que oferecia o sistema misto E, e concluía sobre a grande vantagem da cementação sobre os demais processos metalúrgicos, para minérios pobres da qualidade dos de S. Domingos. (Leitão,1860, pp.531 - 545)

As considerações tecidas em torno da aplicabilidade do processo de cementação (tomado aqui em termos alargados como o conjunto ustulação – lixiviação – obtenção do cemento por precipitação com ferro) revelam que em Portugal já se conhecia para que classes de minério o processo era rentável, tal como podemos constatar pela seguinte passagem do relatório: «Considerados os sistemas em si mesmos relativamente ao teor, nota-se que a cementação é vantajosa na razão inversa da riqueza metálica, enquanto que as vantagens da fundição aumentam pelo contrário na razão directa; de tal modo, que passado certo limite (variável com as circunstâncias) a fundição seria preferível à cementação. Porém as condições de localidade e teor em S. Domingos não se acham neste caso, e a cementação com ferro cuprífero principalmente, conserva sempre a sua preeminência». Uma alusão directa ao passado recente de Rio - Tinto, e ao processo de cementação aí «praticado de um modo deplorável» (Leitão,1860, p. 545), sugere por sua vez um contacto estreito com os trabalhos do engenheiro Ramón Rúa Figueroa y Fraga (Santiago de Compostela, 1825 – Viena, 1874), nessa altura assumindo o lugar de director da mina espanhola, e o principal reformador das suas actividades em meados do século dezanove (da importância desses trabalhos e do seu papel fundamental no desenvolvimento das tecnologias de aproveitamento das pirites ibéricas daremos algum pormenor mais adiante neste trabalho).

O agreement oficial concedido ao projecto do engenheiro James Mason para a exploração da mina de S. Domingos permitiu-nos inferir que algo semelhante, pelo menos em parte, às indicações de Leitão deveriam constituir esse plano de trabalhos; a constatação de mais factos em outras fontes documentais, a apoiar esta hipótese, levou-nos a confirmar isso mesmo, ou seja, que em S. Domingos, o minério rico seguia cru, e sem problemas, maioritariamente para a Inglaterra – já em 1859, de 23 de Março (data de partida do primeiro navio) a 31 de Dezembro tinham partido do Pomarão 36 navios para Liverpool, 2 para Glasgow, 2 para Swansea e 1 para Newcastle (Braga,1860, p.402).

O enxofre assegurava os custos do transporte (Monteiro e Barata, 1889, p.73), que se tinha facilitado ao máximo, com o caminho de ferro e a navegabilidade de parte do Guadiana por navios de grande porte, mas da hipótese E de tratamento de minério que João Maria Leitão referira, faltava a parte não menos importante da cementação do minério de 2.ª e 3.ª classes, da qual dependia uma grande parte da rentabilidade do sistema apontado como a solução mais lucrativa (Leitão,1860, p.545).

Daí que em 1867, e em resposta aos desafios colocados pela concorrência, ao mesmo tempo que se adoptavam outros métodos de exploração da mina, com a aprovação do plano de James Mason [10] de ataque da parte superior da serra mediante lavra a céu aberto, tal como já se praticava nas minas de Huelva, particularmente em Tharsis, (Custódio, 1996, p.179), se procurasse resolver a questão do aproveitamento do minério que pelos seus baixos teores em cobre não tinha colocação directa no mercado inglês.

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