Carta a James Mason de Gubian de Verdun-1865

Ano: 
1865
Autor: 
Gubian de Verdun
Descrição: 

Lisboa, 3 de agosto de 1865
James Mason Esq.
Caro Senhor,
Cheguei aqui no dia 1.º, pelas 11 horas da manhã. Ao desembarcar, dirigi-me imediatamente ao Sr. Roldan para obter informações sobre a Exposição do Porto, cuja abertura, devido ao parto da Rainha no dia 31 do mês passado, se diz agora que só terá lugar no dia 18 de setembro- e fui informado de que mesmo assim não será inaugurada, pois estão muito atrasados com o edifício e em grande confusão. Este atraso é vantajoso porque seria impossível ter tudo devidamente etiquetado, as vitrinas feitas, etc., até ao dia 1.º passado. As caixas com amostras de minerais, etc., vindas das minas, chegarão aqui no dia 9, pelo vapor Algarve. As pinturas, etc., para o "Sydney Hall" só serão obtidas hoje pela Alfândega - este atraso deve-se aos últimos dias de festividades pelo nascimento do novo Príncipe. Depois de ter tudo em ordem e pronto para enviar para o Porto, seguirei imediatamente para as minas e tratarei do meu trabalho, sendo que o Sr. Cabral terá a gentileza de se ocupar da sua colocação na Exposição.
J.A.C. das Neves Cabral - Já tive duas longas conversas com ele, principalmente sobre o que há a fazer para a Exposição, no que se refere a ele terá muito prazer em prestar-me toda a assistência possível, para que possa confiar que tudo será feito como deve ser. Ele virá ver as pinturas, etc., no armazém de Roldan amanhã, e traz consigo dois conhecedores para as examinar. Transmitirei a sua opinião na minha próxima carta.
Direitos do Governo - Como Cabral lhe disse na sua última carta, ele enviou um ofício ao Ministro a esse respeito, no qual comentou muito fortemente a necessidade de se chegar a uma forma mais satisfatória e direta de calcular os direitos no futuro. Desde então teve lugar alguma conversa verbal entre eles sobre o assunto, e o Ministro parece bastante disposto a estabelecer um direito fixo por tonelada sobre o mineral de exportação, e um insignificante igualmente por tonelada sobre o destinado à cimentação. Mas antes de tomar medidas mais positivas, quer ter uma conferência sobre o assunto com o Chefe da Repartição de Minas e Cabral; porém as festas têm interrompido os negócios públicos por agora, assim como a obtenção junto do Ministro da Guerra de um decreto ordenando o aquartelamento de destacamentos de tropas nas minas. O Ministro da Guerra, Sá da Bandeira, opôs-se muito decididamente a esta medida no início, e não via de modo algum a necessidade pela qual as tropas deveriam ser chamadas a defender os direitos de uma Empresa Particular; no entanto, parece que tanto Roldan como Cabral argumentaram com o com ele, apresentando factos, etc., de modo que agora ele parece bem disposto e sem dúvida acabará por assinar a ordem. Com toda a força que pude, imprimi em Roldan e Cabral a necessidade de que este assunto fosse tratado com o menor atraso possível, e não tenho dúvida de que, estando eu aqui ao seu lado, eles procurarão obter do Ministro o que é necessário. Aljustrel — Depois de uma longa conversa com Cabral sobre outros assuntos, e quando estava prestes a despedir-me dele, ele disse: - "É verdade, diga-me de que humores está o Snr. D. Diogo a respeito da Mina d'Aljustrel?"
A minha resposta foi: - "Para lhe falar a verdade, não sei; desde que voltámos da Mina, não tenho visto o Sr. D. Diogo mais do que uma ou duas vezes, e Aljustrel nunca veio à conversa, mesmo porque temos andado muito ocupados, etc."
Ele disse então: - "Pois olhe que é grande coisa, é muito mais do que eu julgava, e mesmo do que disse verbalmente ao Sr. D. Diogo, e ele se visse aquela Mina, a disposição d'ela, a grande riqueza dos dois filões, etc. etc., perdia a cabeça."
Não o encorajei, nem fiz qualquer observação, nem lhe coloquei qualquer questão adicional, mas perguntei-lhe quando o relatório sobre o assunto seria publicado. Está agora nas mãos do Ministro e no decurso de uma semana ou so sem dúvida será publicado — Cabral diz-me que é um relatório extenso e contém todos os pormenores de tudo, distâncias das estradas, etc. Enviar-lho-ei assim que estiver publicado.
Plantas das Obras Subterrâneas - Cabral diz-me que está em falta de algumas que lhe foram pedidas na Mina, e que o Capitão Lucas prometeu enviar-lhe, relativas às galerias transversais, e também as que mostram as chaminés, tanques, etc., na Achada do Gamo - sobre tudo o que ele escreveu a Mascarenhas, que sem dúvida lhe enviou uma cópia da sua carta. Está apenas à espera dessas plantas para poder concluir o seu relatório sobre as Minas, nas quais se refere a elas de uma forma que, diz-me, deixa pouca dúvida sobre o que será possível realizar com as suas propostas de extracção dos pilares de mineral no 12.º piso, planos de enchimento, etc.
Revolta do 3 de Junho — Ainda que Cabral me falou muito reservadamente sobre isto, devo pô-lo ao corrente exactamente do que ele disse a respeito da causa. Disse que ficou apenas espantado por não ter acontecido antes, e que é um ponto que deve merecer a sua séria atenção. Diz que quando na Mina comparou as medições declaradas nos contratos - as pagas - com a quantidade de mineral extraído durante 1864, encontrou uma diferença de mais de 25% a favor dos empreiteiros. Passou pelos seus cálculos uma segunda e terceira vez, pensando que talvez ele próprio tinha cometido algum erro, mas todas as vezes encontrou a mesma diferença. Falou então com o Capitão Lucas sobre o assunto, mas nunca conseguiu obter dele uma resposta satisfatória, tendo consequentemente chegado à conclusão de que, até certo ponto, o que ouve dos mineiros que trabalharam em Santo Domingos e que agora trabalham em quase todas as minas do seu distrito, é verdade. Eles dizem: "Na Mina de Santo Domingos não se pode já trabalhar porque enganam muitíssimo nas medições." - e que este rumor está quase por todo o lado. Naturalmente que eu não me comprometeria a dar-lhe uma resposta sobre o que nada sei, mas disse-lhe que estava muito enganado quanto à diferença de 25%, e provei-lhe que a diferença real nunca poderia ser apurada enquanto os trabalhos não fossem levados a um ponto zero, devido às quantidades transitadas em 1.º de Janeiro de 1863 e transportadas em 31 de Dezembro de 1864.
No geral, Cabral está muito favoravelmente disposto para com o senhor e fará, tenho a certeza, tudo o que estiver ao seu alcance em favor da Empresa.
Sr. Ford - Diz-me que o rumor geral em Beja é que vão trabalhar a Mina de Aljustrel, e que com base nisso, e em que terão de enviar uma grande quantidade de gado para lá, subiram os preços de toda a forragem 50% nos últimos 2 meses, e estão diariamente à espera da chegada do seu grupo de mulas. Ele espera terminar a estrada até ao Guadiana para o início de Novembro, e diz-me que entretanto o governo espanhol nomeou dois engenheiros para inspeccionar a estrada para a sua linha, para vir ao encontro dos portugueses na direcção de Serpa.
Thomas Kershaw - Consegui arranjar-lhe emprego junto do Sr. Ford, à razão de £200 por ano para começar. Não exagerei as suas capacidades de forma alguma, mas disse ao Sr. Ford exactamente o que ele é e a opinião que o senhor tem dele. Escrever-lhe-ei hoje e aconselhá-lo-ei a aceitar imediatamente. Caso o negócio da Reuters venha a resultar em algo, podem sempre fazer-lhe uma oferta melhor, e então ele poderá mudar se não estiver satisfeito.
Oscar Deligny — Está fora da cidade com a família, e não tenho conseguido saber o seu paradeiro.
S. F. Braga — Perguntou muito amavelmente por si. Tem muito a dizer sobre o 3 de Junho; naturalmente vê o assunto de forma muito exagerada à sua maneira.
Acções de Mineral — As seguintes estão aqui e creio que em estado muito deteriorado:
S. Bdekerer — Jane — Jones — St. John — Amos — Ann Richard — Borce — Anatole & Marie — Queen —, os nomes que copiei tal como foram reportados, o Sr. Barry sem dúvida será capaz de os identificar.
Alsácia — O que ele escreveu sobre o assunto receio que venha a revelar-se completamente errado.
Petróleo — Desde 1 de Julho tem estado sujeito a um direito de 20% [?].
Nunca foi enviado nenhum para a Mina via Lisboa. Quanto aos direitos cobrados sobre os tubos de ferro, o Sr. Roldan já enviou um ofício ao Ministro para lhes conceder entrada livre, uma vez que são utilizados para extrair o óleo e são devolvidos a Inglaterra para reabastecimento. Tenho poucas dúvidas de que o Ministro o despachará favoravelmente e sem demora.
Não posso dizer nada sobre as rodas de ferro para as vagonetas ainda.

Sem mais nada a acrescentar, sou,
Caro Senhor,
Seu muito atenciosamente,
Gubian de Verdun

P.S. — O Sr. Roldan acaba de regressar do Ministro e este já deu as suas ordens para um destacamento de soldados ser enviado para as Minas. O senhor receberá um telegrama a este efeito do Sr. Roldan, já enviado.