
Valentim Adolfo João (1902–1970)
Sindicalista mineiro, anarcossindicalista e resistente antifascista
Nota prévia
O presente documento reformula e amplia a biografia de Valentim Adolfo João, integrando-a no enquadramento histórico da Mina de São Domingos e na história do Sindicato dos Operários da Indústria Mineira de São Domingos (S.O.I.M.). Baseia-se nos registos paroquiais e civis, no registo prisional (Biografia Prisional n.º 19578), na cronologia documental da Mina - imprensa de época: A Folha de Beja, O Século, A Batalha, A Voz do Guadiana, O Porvir, Solidariedade), na correspondência da G.N.R. e dos cartórios notariais de Mértola, na coleção de A Voz do Mineiro (1930–1931) e nos trabalhos de Paulo Eduardo Guimarães (Indústria e Conflito no Meio Rural) e de Helena Pato.
- A Mina de São Domingos: Enquadramento histórico
Para compreender a vida de Valentim Adolfo João é indispensável compreender o mundo em que ela decorreu: a Mina de São Domingos, no concelho de Mértola, um dos maiores complexos mineiros da faixa piritosa ibérica e, durante um século, um verdadeiro Estado dentro do Estado.
A exploração do jazigo remonta à Antiguidade. Os trabalhos antigos, sobretudo romanos, eram bem visíveis e o próprio jornal dos mineiros lhes dedicou uma «Resenha histórica»: foram encontradas moedas e medalhas que vão do reinado de Augusto até Teodósio, calculando-se as escavações antigas em cerca de 150.000 metros cúbicos, atingindo vinte metros abaixo da galeria de esgoto. Na era contemporânea, a concessão provisória da mina foi feita em 22 de maio de 1858, abrangendo uma área de cerca de 798.000 metros quadrados, a Ernesto Deligny, Luís Decazes e Eugénio Declerc, como concessionários de Nicolau Biava, sendo a concessão definitiva concedida em 12 de janeiro de 1859. A concessão passou a pertencer à Sociedade Mineira «La Sabina», com direção em Paris, que arrendou a exploração à firma inglesa Mason & Barry, Limited, com escritório em Londres. Os trabalhos da grande corta a céu aberto iniciaram-se em 1867 e, em 1868, começou o tratamento do minério na Achada do Gamo, a cerca de três quilómetros da mina. Um caminho-de-ferro próprio, com cerca de quinze quilómetros, ligava a mina ao porto fluvial do Pomarão, no Guadiana, de onde o minério seguia por via marítima.
A massa cuprífera de São Domingos era então considerada a mais importante e valiosa de Portugal: cerca de 600 metros de comprimento por 60 de largura, com profundidade reconhecida de 300 metros, minério com 2,75% de cobre e 45 a 50% de enxofre. À sua volta cresceu uma povoação operária que em 1930 contava cerca de 4.000 habitantes sem estação telégrafo-postal, como o próprio sindicato denunciava onde praticamente tudo pertencia à Empresa: as habitações (quartos alugados por escassos centavos), o abastecimento (a famigerada «farinha barata» ou «farinha engodo», fornecida à ração), o hospital, a polícia privada e até a força pública, alojada em edifício construído pela companhia. Em 1930, a direção era encabeçada por Edward Barry (diretor-gerente), Frederick John Rich (gerente) e F. T. Roskrow (chefe do departamento mineiro).
A história da mina foi também uma história de tragédias e de lutas. Em 16 de março de 1881 ocorreu a grande derrocada que "A Voz do Mineiro" recordaria como «uma data trágica», de memória «inapagável na memória de todos os trabalhadores desse tempo». A primeira greve de grande dimensão deu-se nos finais de agosto de 1907, envolvendo cerca de 2.000 operários e a intervenção de forças militares; em agosto de 1909, nova greve terminou com vitória parcial dos mineiros e dos barreneiros na questão das oito horas; em julho-agosto de 1923 registou-se a greve geral que, frustrada pela satisfação parcial de algumas exigências, esteve na origem direta da formação do sindicato mineiro. Os mineiros trabalhavam sem elevadores nos poços, obrigados a subir, depois de oito e nove horas de trabalho, cerca de quatrocentos degraus húmidos e escorregadios — denúncia que correria o país em 1930. Em 1930, um grande desabamento de terras nas Cortas pôs fim definitivo aos trabalhos a céu aberto, e na Achada do Gamo construíram-se novas instalações de produção de enxofre de elevada pureza destinado em exclusivo à CUF. Foi neste universo de riqueza imensa extraída por salários de fome, sob gerência inglesa e tutela complacente do Estado que se formou o militante Valentim Adolfo João.
- Origens e formação (1902–1922)
Valentim Adolfo João nasceu em 30 de março de 1902, na freguesia de São Salvador, concelho de Aljustrel, o assento de batismo (lavrado em 29 de junho de 1902) regista o nascimento na Mina de São João do Deserto, daquela freguesia. Era filho de Adolfo João, mineiro, natural de São Miguel do Pinheiro (Mértola), e de Ana Martins Gata, natural do Pereiro (Alcoutim) — pais «recebidos na freguesia da Corte do Pinto» e ligados, como toda a família, ao trabalho mineiro, repartido entre Aljustrel e a Mina de São Domingos. Foi irmão de Manuel Patrício, de António Adolfo João e de Maria Ana João, todos eles também ligados à atividade mineira.
Aos três anos de idade, em virtude de doença dos pais, foi adotado por familiares. Fez a instrução primária na Mina de São Domingos e, em 1915, com treze anos, começou a trabalhar no Laboratório Químico das Minas; a guerra obrigou-o a interromper este trabalho, que só retomou em 1918. Valentim era «químico», isto é, técnico do laboratório de análises do minério uma atividade exercida em contacto permanente com os engenheiros e as chefias da Empresa, e que explica a sua sólida preparação. A sua inteligência, dedicação ao trabalho e intervenção junto da direção mineira em defesa dos trabalhadores cedo o levaram a destacar-se como «dirigente da classe». Recusou várias «ofertas» de emprego em Inglaterra. Em registos posteriores surge ainda com as profissões de escriturário (1926) e apontador (1949).
Casou em 17 de janeiro de 1926, na Mina de São Domingos, com Antónia Gonçalves. Teve um filho, Valentim Adolfo Fischer.
- O despertar sindical: o Grupo de Estudos Sociais e a fundação do Sindicato (1923–1925)
No início dos anos vinte, Valentim fundou, com outros companheiros, o "Grupo de Propaganda e Estudos Sociais" da Mina de São Domingos (de que foi membro de 1923 a 1933), núcleo anarquista que desenvolveu intensa atividade de propaganda e de organização sindical na região. Aparece ligado à greve de julho-agosto de 1923 em São Domingos que, ao ser parcialmente desativada pela satisfação de algumas exigências por parte do patronato, evidenciou a necessidade de uma organização permanente e conduziu à formação do Sindicato Mineiro.
O ano de 1924 foi decisivo e violento. Em 19-20 de abril, em plena greve do pessoal da mina, rebentaram duas bombas no telhado da residência do gerente Frederick John Rich, causando apenas danos materiais; a Legação Britânica interveio de imediato junto do Governo português e a repressão abateu-se sobre os «operários mais ativos». A Empresa despediu Valentim A. João, José Martins Colaço e José Afonso, membros da direção do sindicato em organização, e cinco homens dirigentes associativos, um ex-empregado e um professor primário foram enviados presos para Lisboa, acusados «uns de bombistas e outros de agitadores», num processo que a imprensa regional denunciou como perseguição encomendada pelo «polvo mineiro»: «Quem governa em Portugal, é o senhor gerente da Mina de S. Domingos, ou são os portugueses?», perguntava "A Voz do Guadiana". A biografia regista que terá sido preso em 1924 por acusação de lançamento de uma bomba e que viu, por duas vezes, a casa invadida pela polícia e os seus pertences domésticos destruídos.
Apesar de tudo, em 22 de junho de 1924 inaugurou-se a Associação de Classe dos Mineiros de São Domingos (Sindicato dos Operários da Indústria Mineira), perante mais de mil pessoas, com a filarmónica de Mértola a percorrer as ruas. À sessão inaugural presidiu o deputado Sá Pereira; Valentim João, secretário-geral do sindicato, agradeceu a todos quantos haviam contribuído para a sua criação e lamentou «as injustiças praticadas nos últimos tempos e em especial aquelas exercidas na Mina de São Domingos». Falaram ainda Francisco Viana (delegado da C.G.T.), Augusto Machado (mineiros de Aljustrel), António Marques Gaisinha (rurais de Serpa), o célebre Gonçalves Correia e o professor Manuel Cândido.
Em 1925, Valentim foi delegado ao Congresso Operário e participou ativamente na preparação e nos trabalhos da "1.ª Conferência Anarquista da Região do Sul" (Aljustrel, 26 de abril de 1925), promovida no quadro da União Anarquista Portuguesa, em que representou, com Diogo Palma Neves, o Grupo de Propaganda e Estudos Sociais de São Domingos sendo um dos endereços de contacto da comissão organizadora («Valentim Adolfo João, Mina de São Domingos»). Nos anos de 1924-1930 exerceu cargos diretivos no Sindicato, presidiu a sessões magnas contra a crise de trabalho e a baixa de salários, e foi organizador das caixas de solidariedade e das mutualidades mineiras para auxílio na doença e no desemprego. Foi ainda delegado ao Comité Confederal da C.G.T. nos anos trinta e ativo organizador da Federação Mineira e Metalúrgica.
- Perseguições sob a Ditadura Militar (1926–1929)
Com o golpe de 28 de maio de 1926, a perseguição intensificou-se. Em 7 de dezembro de 1926 rebentou durante a noite uma bomba na Sociedade Agrícola e de Transportes, e dias depois "A Batalha" noticiava «a injustificável prisão dum camarada»: Valentim A. João, detido na esquadra da Empresa, em rigorosa incomunicabilidade, «parece que sob a acusação de implicado num atentado» — acusação que o próprio jornal desmontava, sugerindo que a prisão fora «encomendada» e que a verdadeira razão era atribuírem-lhe as correspondências críticas publicadas na imprensa operária.
Em abril de 1927 encontrava-se preso em Beja, sob a acusação «terrível», ironizava "A Batalha", «de ser conhecido na Mina de São Domingos, onde trabalhava, como defensor de ideias avançadas». Transferido para Lisboa, subscreveu em 5 de maio de 1927, com outros sete presos libertários de vários pontos do país, a reclamação coletiva dirigida ao Diretor da Polícia de Informações do Ministério do Interior, em que os detidos «acusados unicamente de professarmos ideias libertárias» pediam a rápida revisão dos processos, denunciando a fome que já entrava nos seus lares. Passou pelo hospital do Rego e pelo calabouço 4 do Governo Civil, sendo restituído à liberdade em 18 de maio de 1927, após mais de um mês de detenção.
Foi também por esta época, nos finais dos anos vinte, que o Sindicato, então federado na C.G.T. anarcossindicalista, convidou Ferreira de Castro a visitar São Domingos para uma grande reportagem em "O Século" sobre as duras condições de vida dos mineiros. O escritor esteve na mina e contactou com «o célebre dirigente do sindicato mineiro de então, Valentim Adolfo João» mas a reportagem nunca foi publicada, por pressões da administração da Mina, só vindo a ser publicada em 1974.
Em outubro de 1930, Valentim integrou a delegação de cinco dirigentes das Associações dos Mineiros de Aljustrel e de São Domingos (Josué, Delgadinho, Silva, Patrício, Valentim Adolfo João e Francisco Horta) que se deslocou a Lisboa, à redação da revista "ABC", para denunciar à imprensa as condições de vida nas duas minas. O resultado foi o longo artigo «Vidas Sombrias - Como Vivem os Mineiros de São Domingos e Aljustrel» (ABC, n.º 537, de 30 de outubro de 1930), assinado pelo jornalista Herculano Pereira, que descrevia os mineiros como «farrapos humanos» e reclamava trabalho para todos, a redução das horas extraordinárias, elevadores nos poços em vez do «calvário de quatrocentos degraus» e vistorias oficiais com a presença de delegados sindicais.
- "A Voz do Mineiro" (1930–1931): O jornal do sindicato
É neste contexto que nasce, em 22 de fevereiro de 1930, "A VOZ DO MINEIRO" — «Órgão dos mineiros portugueses aderentes à Federação Mineira Internacional». Propriedade do S.O.I.M. (Sindicato dos Operários da Indústria Mineira de São Domingos), com redação e administração na Mina de São Domingos, era composto e impresso em Lisboa (primeiro na Casa dos Gráficos, na Travessa da Água de Flor, depois na Futurista-Gráfica), vendido a $50, e saía obrigatoriamente «Visado pela Comissão de Censura» marca dos tempos da Ditadura militar. Foram publicados 22 números, entre fevereiro de 1930 e finais de 1931, com periodicidade aproximadamente mensal.
O primeiro número saudava «a imprensa e a classe» e definia o programa: ser o «porta-voz conciso das aspirações justas» dos operários da indústria mineira de São Domingos — então mais de 2.000 sindicados com pagamento em dia — «defensor acérrimo da razão e da justiça, e sobretudo baseado na moralidade dos factos». As suas páginas constituem hoje uma fonte excecional sobre a vida mineira: editoriais doutrinários e de combate («O que reclamamos e continuaremos reclamando», «Nós os mineiros portugueses», «Serenamente...»); a «Vida Sindical», com as atas das assembleias gerais, contas trimestrais e resoluções da classe; a obra mutualista (Caixa de Solidariedade, a «Lutuosa», a projetada Caixa de Pensões e Reformas, e a União Mutualista de Cambas); as correspondências de Aljustrel, do Pomarão, do Lousal e de «Por Espanha» (Minas das Herrerias, Puebla de Guzmán, Huelva, Rio Tinto), reflexo da solidariedade transfronteiriça dos mineiros; as notícias da Federação Mineira Internacional (o XXIX Congresso Internacional dos Mineiros, em Cracóvia, em maio de 1930, e o discurso do mineiro inglês Artur J. Cook no congresso mineiro espanhol); a campanha persistente «Pelos mineiros, contra a taberna», contra o alcoolismo que a miséria alimentava; as denúncias sobre acidentes de trabalho, higiene e salubridade, horário de trabalho e «castigos injustos»; e ainda a «Resenha histórica» da própria mina e as quêtes de solidariedade com despedidos e famílias enlutadas.
A relação de Valentim Adolfo João com o jornal foi central. O redator principal dos primeiros números foi José (Martins) de Almeida Júnior; quando este, doente e perseguido («por desinteligências havidas, abandonou aquele cargo e em consequência o de escriturário» do sindicato), deixou as funções, foi Valentim A. João quem assumiu, a título provisório, o cargo de redator principal — assim figura no cabeçalho do n.º 9, de 1 de novembro de 1930. Em 1931 a edição passou a estar a cargo de Germinal de Sousa, mas Valentim continuou colunista assíduo, assinando com as iniciais V. A. J. artigos como «De Pomarão à Mina», a «Bancada profissional» (onde, com conhecimento técnico de quem trabalhava no laboratório, explicava a química do minério e reclamava cultura profissional para os operários), «O nosso dever» ou «A Mutualidade e os seus inimigos». O jornal acompanhou igualmente as suas «démarches» como delegado da classe junto da gerência (as entrevistas com o gerente F. T. Roskrow e o subgerente Edmundo), as reclamações entregues ao Governo da República, e a sua ação na fundação da União Mutualista de Cambas de cuja direção foi secretário, eleito para o exercício de 1931 e na campanha pró-Federação Metalúrgico-Mineira da Região Portuguesa (1931), em cujas assembleias usou repetidamente da palavra. Em janeiro de 1932, na assembleia geral do sindicato, Valentim A. João foi reeleito por aclamação delegado da classe, «tendo a nova Direção reconhecido a necessidade de continuar aquele camarada nesse lugar de confiança».
"A Voz do Mineiro" foi, em suma, simultaneamente tribuna, escola e arquivo do sindicalismo mineiro alentejano e o espaço onde a voz de Valentim Adolfo João chegou escrita ao seu auge.
- A greve de 1932 e o primeiro exílio
Em 1931, Valentim regressara ao Laboratório. Mas a crise mundial agravava-se: despedimentos em massa, baixas de salário de 5%, redução dos dias de trabalho — «Os despedimentos em massa, as baixas de salário, constituem graves prejuízos, não só para os operários, como para o próprio país e o Estado», titulava o jornal em novembro de 1930; «Para onde vamos?», perguntava um ano depois.
Em 12 de outubro de 1932 rebentou a última grande greve da Mina de São Domingos, dirigida pela C.G.T. — iniciada pelos dois turnos da contramina e pelo pessoal metalúrgico e logo acompanhada por toda a classe, cerca de dois mil homens, reclamando aumento de 4$00 diários, fixação dos dias de trabalho em 22 por mês, readmissão dos despedidos e garantias contra represálias. O relatório da G.N.R. é eloquente quanto à dimensão do conflito e à «notável e perigosa» disciplina dos grevistas: a localidade foi reforçada com um capitão, quatro subalternos, três sargentos e 158 cabos e soldados, 19 cavalos e três metralhadoras; o Governador Civil de Beja deslocou-se à mina em 26 de outubro, ordenou prisões de dirigentes no dia seguinte e proibiu o trânsito depois das 20 horas. A greve, sustentada por senhas de solidariedade vindas dos sindicatos e, dizia-se, de Espanha, acabou esmagada ao fim de semanas, seguindo-se «uma violenta repressão, com os elementos mais destacados a serem perseguidos, presos e despedidos da mina». A partir daí, a presença anarquista e anarcossindicalista em São Domingos entrou em declínio — e Valentim Adolfo João ficaria como o seu último dirigente sindical.
Por ter participado nesta greve, Valentim viu-se forçado a exilar-se: em novembro de 1932 emigrou para Puebla de Guzmán ( Casa del Duque), na província de Huelva, a escassas dezenas de quilómetros da fronteira, onde renovou a matrícula na área consular de Huelva em 30 de outubro de 1934 e 29 de janeiro de 1936. O anarquista José Correia Pires, fugido para Espanha nas vésperas do 18 de janeiro de 1934, deixou nas suas memórias um retrato impressivo deste exílio: encontrou Valentim «feito agricultor», a viver com a mulher e os filhos numa barraca de vime, fazendo a sua sementeira como «um autêntico camponês», estimado pela população local e ainda assim visitado de noite pelas patrulhas dos carabineiros.
- Clandestinidade, o atentado a Salazar e os quinze anos de Peniche (1936–1964)
Em agosto de 1936, já com a guerra civil a incendiar a Espanha, Valentim entrou clandestinamente em Portugal, vivendo entre os corticeiros do Barreiro, até finais de 1937, entregue aos combates da luta antifascista. Em 1937 foi implicado no atentado contra Salazar (4 de julho de 1937), levado a cabo pelo grupo de que fazia parte Emídio Santana e outros libertários e antifascistas: a PVDE acusou-o de ter fornecido a dinamite utilizada. Para escapar à caçada policial fixou-se de novo em Espanha, mantendo-se «na defesa dos seus ideais» até ao final da guerra civil.
Julgado à revelia pelo 1.º Tribunal Militar Territorial de Lisboa em 20 de março de 1939, foi condenado — segundo o próprio registo prisional — à pena de 23 anos e 8 meses de degredo, «em possessão de 1.ª classe», pelos crimes dos artigos 351.º, 55.º n.º 1 e 57.º do Código Penal; nota posterior retifica a pena para «7 anos de prisão maior celular, seguida de degredo por 12, ou, em alternativa, na de 23 anos e 8 meses de degredo em possessão de 2.ª classe». (A tradição memorialista, recolhida por Helena Pato, refere uma condenação a 28 anos; o regime aproveitou o atentado para perseguir e prender muitos democratas.) A partir de então, Valentim viveu na clandestinidade sob o pseudónimo "José Dias", até 1946, ano em que foi reconhecido em Setúbal. Partiu de novo para Espanha, mas regressou clandestinamente a Portugal.
Acabou por ser preso em Setúbal (Caminhos de Ferro), em 10 de novembro de 1949, pela P.S.P., «para averiguações», sendo recolhido à Cadeia do Aljube e posto à disposição do 1.º Tribunal Militar de Lisboa em 26 de novembro de 1949. Capturado, recorreu da sentença, mas o recurso, «por ter sido apresentado fora do prazo legal», não foi conhecido pelo Supremo Tribunal Militar (decisão de 30 de dezembro de 1949). Em 2 de fevereiro de 1950 deu entrada na cadeia do Forte de Peniche. Aí permaneceu quinze anos, sendo restituído à liberdade em 29 de abril de 1964 — o último dos anarcossindicalistas libertados das prisões políticas da ditadura. Saiu de Peniche fisicamente destruído. O registo prisional, com as suas três fotografias de identificação, descreve um homem de 1,69 m; a alcunha registada é o próprio nome não tinha outra.
- Últimos anos e memória (1964–2020)
Valentim Adolfo João morreu em Setúbal, em 29 de janeiro de 1970, aos 67 anos. No seu funeral a PIDE ainda esteve presente — «para ter a certeza de que o anarquista morrera mesmo», nas palavras do seu filho, Valentim Adolfo Fischer, em depoimento a Edgar Rodrigues.
A memória da sua luta foi sendo resgatada. Em 25 de abril de 1997, na casa onde viveu foi colocada uma placa evocativa, por homenagem da Câmara Municipal de Mértola, da Junta de Freguesia de Corte do Pinto e do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Mineira, «pela luta que desenvolveu em defesa dos mineiros de S. Domingos e Aljustrel»: «Nesta casa viveu Valentim Adolfo João, sindicalista/antifascista. (...) Viveu na clandestinidade de 1934 a 1949. Foi preso político entre Outubro de 1949 a Abril de 1964.» Em 1 de fevereiro de 2020, por ocasião dos 50 anos da sua morte, foi homenageado pela Comissão de Moradores da Mina de São Domingos.
A sua trajetória condensa meio século de história social portuguesa: o paternalismo industrial e a exploração colonial-empresarial da Mason & Barry; a efervescência sindicalista da Primeira República; o anarcossindicalismo da C.G.T. e a sua imprensa; a resistência à Ditadura e ao Estado Novo; o exílio, a clandestinidade e a prisão política. E "A Voz do Mineiro", o jornal que dirigiu e onde escreveu permanece como o testemunho mais direto dessa voz que, do fundo da mina, «brada» ainda: «Mineiros portugueses, uni-vos!»
Cronologia sintese
Data | Acontecimento
22-05-1858 / 12-01-1859 | Concessão provisória e definitiva da Mina de S. Domingos; «La Sabina» arrenda a exploração à Mason & Barry, Limited
1867–1868 | Início da corta a céu aberto; arranque do tratamento do minério na Achada do Gamo
16-03-1881 | Grande derrocada na mina, com vítimas mortais
30-03-1902 | Nascimento de Valentim Adolfo João (freguesia de S. Salvador, Aljustrel), filho de Adolfo João, mineiro, e de Ana Martins Gata
1907 / 1909 | Primeiras grandes greves na Mina de S. Domingos
1915 / 1918 | Início (e retoma, após interrupção devida à guerra) do trabalho no Laboratório Químico das Minas
c. 1920–1923 | Fundação do Grupo de Propaganda e Estudos Sociais da Mina de S. Domingos (membro de 1923 a 1933)
07/08-1923 | Greve geral na mina; arranque da organização sindical
04-1924 | Bombas na residência do gerente Rich; despedimento de Valentim e de outros dirigentes; prisões
22-06-1924 | Inauguração da Associação de Classe dos Mineiros de S. Domingos; Valentim, secretário-geral
26-04-1925 | 1.ª Conferência Anarquista da Região do Sul (Aljustrel); delegado ao Congresso Operário
17-01-1926 | Casamento com Antónia Gonçalves, na Mina de S. Domingos
12-1926 / 05-1927 | Prisões (atentado à Sociedade Agrícola; Beja e Lisboa); libertado em 18-05-1927
Finais dos anos 20 | Reportagem de Ferreira de Castro na mina (suprimida; publicada apenas em 1974)
22-02-1930 | Sai o n.º 1 de A Voz do Mineiro, órgão do S.O.I.M. (22 números até finais de 1931)
30-10-1930 | Artigo «Vidas Sombrias» na revista *ABC* (n.º 537), na sequência da delegação a Lisboa
01-11-1930 | Valentim A. João assume (provisoriamente) a redação principal de A Voz do Mineiro
1931 | Secretário da direção da União Mutualista de Cambas; campanha pró-Federação Metalúrgico-Mineira
01-1932 | Reeleito por aclamação delegado da classe
12-10-1932 | Última grande greve da Mina de S. Domingos; violenta repressão
11-1932 | Exílio em Puebla de Guzmán — Casa del Duque (Huelva)
08-1936 | Regresso clandestino a Portugal; vive entre os corticeiros do Barreiro
04-07-1937 | Atentado a Salazar; acusado de fornecer a dinamite; novo exílio em Espanha
20-03-1939 | Julgado à revelia pelo Tribunal Militar; condenado a pesada pena de degredo/prisão
1939–1946 | Clandestinidade sob o pseudónimo «José Dias»; reconhecido em Setúbal em 1946
10-11-1949 | Preso em Setúbal; Aljube
02-02-1950 | Entrada no Forte de Peniche
29-04-1964 | Restituído à liberdade — o último anarcossindicalista libertado
29-01-1970 | Morte, em Setúbal; a PIDE assiste ao funeral
25-04-1997 | Placa evocativa na casa onde viveu (C.M. Mértola, J.F. Corte do Pinto, Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Mineira)
01-02-2020 | Homenagem da Comissão de Moradores da Mina de S. Domingos, nos 50 anos da morte
Fontes:
Assentos de batismo, casamento e óbito (Aljustrel / Mina de S. Domingos / Setúbal); registo de matrícula consular (Huelva, 1934 e 1936); Biografia Prisional n.º 19578 (PIDE/DGS). Coleção do jornal "A Voz do Mineiro" (S.O.I.M., Mina de S. Domingos, 1930–1931, n.os 1–5, 9, 18–21). Cronologia documental da Mina de S. Domingos (compilação de João Nunes), com base em: "A Folha de Beja", "O Século", "O Heraldo", "A Batalha", "A Voz do Guadiana", "O Porvir", "A Alvorada" e "Diário de Notícias" (New Bedford), "Os Novos", "Ala Esquerda", "Solidariedade", "Solidariedade Mineira e Metalúrgica", "O Proletário"; correspondência da G.N.R. e do Ministério do Interior (Torre do Tombo); Anuário Comercial. Revista "ABC", n.º 537, 30-10-1930 («Vidas Sombrias»). Paulo Eduardo Guimarães, "Indústria e Conflito no Meio Rural". Helena Pato, biografia de Valentim Adolfo João. José Correia Pires, "Memórias de um prisioneiro do Tarrafal" (1975). Blogue «Tudo em Família», «Do escravo Domingos ao anarquista Valentim — uma viagem genealógica». CEMSD — Centro de Estudos da Mina de São Domingos.






